Editorial - 2 de Fevereiro de 2019
Desde 2016 que as mulheres têm rugido em uníssono pelo mundo. Mobilizações grandiosas, que vieram também dos países “periféricos”, assolados por crises sociais, políticas e económicas, em que os ataques aos nossos direitos se aprofundam, dia após dia. A começar pelas polacas, as mulheres contra Trump, passando pelas nossas companheiras na Argentina, o ano de 2016 foi o pontapé de saída de um estrondoso movimento grevista conhecido como a greve internacional de mulheres. Ano após anos, somamos lutas, fortalecendo o movimento em todos os países em que está presente, criando laços de solidariedade internacional que há muito não víamos. Quando gritamos “tocaram numa, tocaram em todas”, não mentimos.
As mulheres têm ocupado a primeira fileira de muitas lutas, desde aquelas que se lançam contra a violência machista, contra as leis retrogradas que restringem o acesso ao aborto mas também na luta pela educação pública, como é o caso das professoras nos Estados Unidos e, em Portugal, também, pelo serviço nacional de saúde, como as enfermeiras dos nossos hospitais, contra o racismo e a brutalidade policial, nas mobilizações recentes no centro de Lisboa e no Seixal. Vemos mulheres nos coletes amarelos franceses contra os impostos e o Governo Macron e, em Angola, a tomar as ruas contra a violência de género. Na Índia, as mulheres fizeram um cordão humano gigante pela igualdade na sociedade. Na Irlanda, ganharam um referendo que permite a realização do aborto de forma legal, digna e segura.
Estes anos testemunharam também um crescimento e fortalecimento dos movimentos de extrema-direita e neofascistas, começando com o Trump nos EUA, a eleição de Bolsonaro, no Brasil, a coligação do movimento Cinco Estrelas e a Liga do Norte, em Itália, a entrada da “Alternativa para Alemanha” no Parlamento, Orban na Hungria, entre muitos outros. Em Portugal, a extrema-direita ensaia oportunisticamente as suas tentativas (até agora falhadas) de ganhar algum espaço político. O retrocesso que estes movimentos e políticos querem implementar afetam de forma particular as mulheres, negras/os, LGBTs e imigrantes e por isso vemos, com alento, as mulheres na Andaluzia a convocar importantes mobilizações contra o Vox, partido de extrema-direita, que ocupou cargos após as eleições regionais adaluzas. A resistência antifascista necessita de vir também das mulheres.
Aproxima-se um novo dia internacional da mulher, construído coletivamente, nacional e internacionalmente. Unir as reivindicações das feministas ativistas com as reivindicações das mulheres pobres, trabalhadores, imigrantes, negras é a pólvora necessária para que tenhamos sucesso na nossa missão de erradicar o machismo, mas também de erguer uma nova sociedade, livre de opressão, exploração e sofrimento. A greve internacional de mulheres é mais do que uma greve de um dia só, é a luta pelas nossas vidas.
Este movimento ultrapassa as estruturas sindicais tradicionais, embora as mulheres que o constroem sejam maioritariamente trabalhadoras. Os sindicatos há muito que nos ignoram e nos abandonam no silêncio, sem atender as nossas reivindicações, nem zelar pelos nossos direitos, enquanto parte da classe trabalhadora. Reverter este panorama é urgente, pois combinando as reivindicações de quem trabalha com as de quem é oprimida diariamente e entendendo que ambas são partes integrantes da luta anti-capitalista, teremos muito mais força para enfrentar os nossos inimigos. Nalguns países, como é o caso do Estado Espanhol, a mobilização foi tão grandiosa em 2018 que as centrais sindicais se viram obrigadas, desde a sua base, a convocar greves que colocaram mais de 5 milhões de pessoas nas ruas. É isso que desejamos para Portugal e para os demais países. Que a esquerda tradicional, BE e PCP, os sindicatos e as centrais sindicais percam o medo de estar do nosso lado da barricada, que ouçam as nossas vozes, as nossas reivindicações e convoquem greves para o dia internacional da mulher (trabalhadora) que não é um dia de flores e workshops de maquilhagem mas sim um dia construído sobre a luta das mulheres russas, das mulheres polacas e todas aquelas que no dia internacional da mulher fizeram sentir a sua raiva com este mundo injusto, desumano e opressor!
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